o projeto


Durante os catorze anos em que morei em Genebra (Suiça), desenhei e confeccionei roupas de bebê, de cama e de mesa para duas butiques de decoração de interior. Meu objetivo sempre foi me dedicar a este trabalho quando voltasse a morar no Brasil, visando ao mesmo tempo apoiar pessoas de baixa renda. Quando, em 2003, criei o grupo das Três Baianinhas, que agora se organiza em associação, eram somente três bordadeiras. Hoje somos vinte, e o objetivo de gerar renda e permitir, ao mesmo tempo, que mães possam trabalhar sem se afastar de casa, está sendo alcançado.
Sabemos que a presença de um dos pais em casa é fator principal para o fortalecimento familiar, seja qual for o nível social das famílias. As bordadeiras trabalham em casa, ou se reúnem em pequenos grupos em casa de uma delas. A participação em um grupo unido e responsável, o contato que ajuda a relativizar dificuldades e a compartilhar idéias e problemas os mais diversos, além do fato importante de poder trazer um aporte financeiro à família e do prazer de realizar trabalhos bonitos e admirados, tem contribuído para o bem-estar e a melhora da auto-estima de cada uma.
Muitas vezes, artesãos de baixa renda são capazes de fazer um trabalho perfeito, faltando, porém, criatividade e possibilidades de melhores escolhas nos materiais e temas usados em seus trabalhos. É essa orientação que busco dar, esperando assim contribuir para que essa bonita, porém difícil profissão que faz parte de nossas tradições, possa perdurar.
  

Um pouco de informação sobre nosso funcionamento

"Na minha rua tem um jacarandá!"
 
"Vi uma árvore linda e queria saber como se chama"
Nos reunimos uma vez por mês ou mais, em Samambaia-Expansão (Distrito Federal) cidade-satélite onde mora o grupo maior (cerca de 10 bordadeiras). Os trabalhos prontos são entregues de várias maneiras, de modo a economizar tempo e dinheiro: um filho que trabalha no Plano Piloto, ou uma irmã, um marido. Passo no trabalho de cada um, e trocamos as bolsas: trabalho feito por trabalho a fazer. Com algumas bordadeiras me encontro às vezes em minha casa, ou na saída do metrô e, num banco de jardim, passamos o tempo necessário para falar tranqüilamente sobre nossos bordados e fazermos nossas trocas de bolsas.
Sempre aproveitamos para olhar as árvores a nossa volta e trocar idéias para melhor bordá-las. Vamos aproveitando cada período de floração. Fico muito feliz ao ouvir as bordadeiras se referirem às árvores pelos seus nomes corretos. Antes, nenhuma delas as conhecia e foi com prazer que fui ouvindo muitas me falarem de árvores existentes perto de casa e que não haviam sido notadas antes.
Diferente da visão nos países europeus, no Brasil o trabalho artesanal não é valorizado como deveria e, certas profissões tradicionais, correm o risco de se perder, substituídas por outras, às vezes menos gratificantes, mas que permitem um salário mais certo.  
A idéia é compartilharmos nossos saberes e nossos ganhos: criamos uma tabela de preços, analisada e aprovada em reunião. É muito importante que as bordadeiras conheçam o valor do trabalho que fazem. Bordando motivos baseados no folclore, fauna e flora brasileiras, sempre nos agrada quando ouvimos pessoas dizerem que têm uma árvore “como essa” em seu jardim ou na rua onde moram.
 
 
Leila Muniz
Fundadora e coordenadora do Grupo As Três Baianinhas